2024 foi o ano mais quente registado na Europa. As alterações climáticas deixaram de ser uma previsão distante: são uma realidade que ameaça vidas, territórios e economias. A área ardida média duplicou na última década e, até 2030, metade da região mediterrânica poderá estar sob risco extremo de incêndios. Portugal é um dos países mais vulneráveis da União Europeia, mas também um dos que podem liderar a resposta.
Perante este cenário, não basta reagir. É tempo de planear, prevenir e antecipar. A proteção civil não pode ser apenas um sistema de emergência: é uma política estratégica para a coesão territorial, a economia rural e a sustentabilidade ambiental. E deve ser pensada com uma dimensão europeia, porque o fogo, a seca e as tempestades não conhecem fronteiras.
O Mecanismo Europeu de Proteção Civil e o programa rescEU são exemplos concretos da solidariedade europeia. Em 2025, a Europa dispõe de 24 aviões e quatro helicópteros prontos a apoiar qualquer Estado sob pressão. Portugal beneficiou desse apoio seis vezes desde 2017, mas também enviou equipas para a Grécia e França. É assim que a Europa deve funcionar: solidária e corresponsável. Ainda assim, o sistema tem de ser mais rápido, menos burocrático e mais próximo do terreno.
A prevenção continua a ser a chave. Em 2024, 96% dos incêndios em Portugal tiveram origem humana. Com 63% da floresta em mãos privadas e mais de um milhão de hectares sem gestão ativa, não há combate possível sem ordenamento do território e sem uma economia florestal sustentável. Persistimos em investir mais em apagar do que em prevenir – quando a governação eficaz exige exatamente o contrário.
Os municípios são a primeira linha da proteção civil. São eles que conhecem o território, os riscos e as pessoas. Em várias regiões do país, já se demonstra que é possível fazer diferente: com ordenamento, prevenção e capacitação local. A União Europeia deve apoiar diretamente estas autarquias, com fundos acessíveis, eficazes e orientados para o terreno. A proximidade é a melhor forma de salvar vidas.
A Europa enfrenta uma escolha: investir, agora, na resiliência climática ou continuar a pagar o preço das catástrofes. Portugal pode e deve liderar a prevenção no Sul da Europa – não como país que pede ajuda, mas como parceiro que oferece soluções.
Com visão, planeamento e solidariedade, podemos transformar o risco em oportunidade e proteger o que é verdadeiramente nosso: vidas, território e futuro.