Medicamentos críticos: uma decisão política para a segurança europeia

A adoção da Lei dos Medicamentos Críticos marca uma mudança estrutural na forma como a União Europeia encara o acesso aos medicamentos.

A adoção da Lei dos Medicamentos Críticos marca uma mudança estrutural na forma como a União Europeia encara o acesso aos medicamentos. Não se trata de um simples ajustamento regulatório, mas de uma decisão política clara: tratar os medicamentos críticos como um pilar da segurança europeia.

Nos últimos anos, ruturas recorrentes de antibióticos, medicamentos pediátricos, insulina ou fármacos oncológicos demonstraram que o acesso aos medicamentos não pode ser dado como garantido. A pandemia, a guerra na Ucrânia e a crescente instabilidade geopolítica expuseram a fragilidade de cadeias de abastecimento excessivamente dependentes de países terceiros, sobretudo no caso dos medicamentos genéricos e dos princípios ativos.

A Lei dos Medicamentos Críticos responde a esta realidade ao corrigir uma falha estrutural: durante demasiado tempo, a política do medicamento na Europa foi orientada quase exclusivamente pelo critério do preço mais baixo. Essa lógica revelou-se insuficiente para garantir segurança de abastecimento. Com esta legislação, a resiliência das cadeias, a fiabilidade do fornecimento e a capacidade de produção na União Europeia passam a ser critérios centrais, incluindo nas compras públicas.

Este novo enquadramento cria incentivos para relocalizar a produção, apoiar projetos industriais estratégicos e tornar novamente a Europa um espaço atrativo para investir na produção de medicamentos essenciais. Reforça também a coordenação entre estados-membros, através de compras conjuntas, maior transparência sobre stocks e mecanismos de solidariedade em situações de rutura.

Para países como Portugal, esta abordagem europeia é particularmente relevante. Estados-membros com menor dimensão industrial beneficiam de instrumentos comuns que reforçam a equidade no acesso aos medicamentos e reduzem a exposição a ruturas. A segurança do abastecimento passa assim a assentar numa resposta europeia coordenada.

A Lei dos Medicamentos Críticos afirma uma ideia essencial: autonomia estratégica não é isolamento, mas diversificação inteligente, capacidade própria e cooperação. Uma Europa dependente de terceiros para medicamentos essenciais é vulnerável, com custos diretos para os doentes.

A implementação será decisiva. Será necessário garantir financiamento adequado, coerência com outras políticas europeias e soluções eficazes do ponto de vista administrativo. O compromisso político é inequívoco: o acesso seguro aos medicamentos é uma prioridade europeia.

Artigo publicado no JN

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